Economia

Dinheiro a um zap de distância

Com o Whatsapp Pay, o Facebook quer controlar todas as etapas de consumo de seus usuários, mas isso não será tão fácil quanto parece.

Depois de meses de espera, o Facebook finalmente conseguiu lançar o Whatsapp Pay, serviço de pagamento via app de mensagens, no Brasil. O anúncio veio sem muito alarde, de surpresa, na tarde do dia 04 de maio. No ano passado, a gigante de tecnologia criada por Mark Zuckerberg já havia anunciado a entrada em funcionamento do serviço, mas logo o Banco Central mandou suspender as operações.

O diretor do WhatsApp, Matt Idema, afirmou em nota que o recurso ajuda a levar serviços financeiros às pessoas e diminui a exposição das pessoas à pandemia, já que se trata de uma maneira totalmente digitalizada de transferências. “Facilitar o envio e o recebimento de dinheiro de maneira segura não poderia ser mais importante neste momento”, disse o executivo em nota.

O movimento do Facebook de lançar o seu próprio método de pagamentos, no entanto, deve ser analisado de uma forma mais ampla, como estratégia da empresa de monopolizar quase todos os hábitos de consumo do usuário e fortalecer sua marca principal que, no caso, é o próprio nome Facebook

“Uma coisa tem de ficar bem clara, não se trata de Whatsapp Pay, mas sim de Facebook Pay”, diz um executivo com grande trânsito entre os grandes bancos para o portal Neofeed, um dos principais veículos de inovação e tecnologia do Brasil. O que ele quer dizer é que o Facebook empregará todo o seu poderio, usando o Whatsapp Pay como um dos principais meios de pagamento no Instagram e em outras plataformas de seus domínios.

Os mais atentos, aliás, já perceberam que no ano passado a empresa iniciou um tímido processo de unificação de marca. Ao abrir os aplicativos do Instagram e do próprio Whatsapp, é possível ver o nome Facebook discretamente posicionado na parte de baixo da tela. O passo mais decisivo nesta direção ocorreu neste ano, quando a empresa integrou os chats do Instagram e do Messenger.

A decisão desagradou boa parte dos usuários, pois enquanto o Messenger é considerado um depósito de spam, o Instagram é hoje a rede social referência entre os brasileiros e por boa parte da população mundial. A rede que surgiu para postagem de fotos com efeitos de momentos felizes passou a abocanhar o público de todas as outras.

Pelo seu forte engajamento de usuários, há que utilize o Instagram para fins profissionais, como faria com o Linkedin, para viralizar vídeos curtos, como faria com o TikTok, para criar uma breve história, como faria com o Snapchat, ou para postar um ‘textão’, como faria no próprio Facebook. Lá, os usuários também publicam prints de seus textos no Twitter e trocam mensagens diretas, fugindo do Whatsapp. Até mesmo aplicativos de relacionamento como Tinder e Happn perderam público para o ‘Insta’.

Quando se fala em troca de mensagens, aliás, o grupo Facebook Inc é imbatível. De acordo com uma pesquisa da Mobile Time feita em parceria com a Opinion Box, que ouviu mais de dois mil brasileiros acima de 16 anos, 98% dos smartphones possuem Whatsapp instalado, 81% o Instagram e 74% o Messenger. Este último, porém, é pouco utilizado: apenas 29% dos usuários abrem o Messenger regularmente.

Com este poder todo, estaria o Facebook também tentando dominar o mercado de pagamentos? A resposta pode até ser sim, mas o mais provável é que a companhia esteja apenas tentando viabilizar uma ferramenta para evitar que o usuário saia de sua área de influência quando precisar fazer uma transação financeira ou adquirir algum produto, controlando todas as pontas do processo.

Além do sistema de pagamentos, a empresa anunciou no último ano a sua carteira digital, a Novi (ex-Calibra), e sua própria moeda digital, chamada de Diem (antiga Libra). Enquanto estes dois outros serviços não entram em operação, o Facebook Pay funciona apenas como uma ponte, onde é necessário vincular um cartão de crédito para efetuar as transferências. O sistema, inclusive, é operacionalizado pela Cielo, conhecida pelas ‘maquininhas’.

Em breve, será possível ver todo o desenho do novo serviço. A maior parte da receita do Facebook vem dos anúncios – e isso não deve mudar. Em geral, são propagandas certeiras, já que a companhia é muito eficiente em armazenar os dados de navegação dos usuários. Com a nova política de segurança do Whatsapp, que se torna obrigatória para todos que quiserem continuar usando o app nos próximos meses, essa coleta será ainda mais eficaz.  O compartilhamento ficou mais abrangente e inclui dados pessoais e de pagamentos realizados pelo WhatsApp Pay, informações sobre o dispositivo e como as pessoas interagem com os outros, em relação a tempo e frequência das suas atividades.

Desta maneira, o Facebook pretende num futuro próximo controlar todas as etapas de um processo de compra. A pessoa visualiza o serviço ou o produto que quer comprar nas redes sociais e, sem precisar sair delas, utiliza o saldo de Diem em sua carteira digital Novi para adquiri-lo por meio do seu meio de pagamento. Assim, a empresa consegue mais dados dos usuários e os utiliza para vender mais anúncios.

A receita genial de negócio parece ser o caminho certo para dominar o mundo, certo? Errado. Felizmente, a concorrência no mundo digital está cada dia mais forte e é difícil que uma única corporação, por mais poderosa que seja, monopolize todos os serviços. O melhor exemplo está na Índia, onde o Whatsapp Pay já opera há quatro meses e até agora não empolgou.

Naquele país, assim como no Brasil, o Whatsapp também é o principal app para troca de mensagens, sendo usado por mais de 90% da população com smartphone. O Facebook também é a rede social mais usada, chegando a 80% das pessoas com acesso regular à internet. Quando se fala em pagamentos, no entanto, nem 1% aderiu à nova ferramenta. Ela está bem atrás de aplicativos locais, como o PhonePe, e de concorrentes globais como o Google Pay e até o Amazon Pay.

No Brasil, a situação não deve ser tão fácil também, pois o país possui outros serviços que continuam em crescimento acelerado. O principal deles é o PicPay, da holding J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista. Em abril, o app que vem investindo e fortes estratégias de marketing, como o patrocínio do Big Brother Brasil, ultrapassou a marca de 50 milhões de usuários. Agora, o PicPay deve abrir capital para investidores na Nasdaq, bolsa que negocia ações de empresas de tecnologia nos EUA. Isso pode render 35 bilhões de dólares aos irmãos Batista, tornando-os os homens mais ricos do Brasil. O principal atrativo do app é a possibilidade cashback, ou seja, ter uma parte do valor pago de volta ao se fazer uma transação.

Em relação ao mercado de mensageria, quem vem se destacando na concorrência ao Facebook é o Telegram. O aplicativo desenvolvido pelo russo Pavel Durov existe desde 2013, mas só a partir do ano passado passou a ganhar mais relevância no país e no mundo. Somente nos quatro primeiros meses de 2021, o Telegram foi instalado em 161 milhões de aparelhos, um crescimento de 98% em relação ao mesmo período do ano passado. O pico ocorreu em janeiro, justamente quando o Whatsapp anunciou a nova política de privacidade.

Mas, apesar o Telegram prestar um serviço de qualidade muito superior ao concorrente mais famoso, boa parte dos usuários que baixa o app não o utiliza para sua função principal, de troca de mensagens. Por conta de suas funcionalidades, ele é usado principalmente para envio e armazenamento de grandes arquivos, acompanhamento de notícias por meio dos canais segmentados e para grupos públicos de discussão. Pode-se dizer que o Telegram vem abocanhando muito mais o público do Facebook do que do Whatsapp.

A rede social que deu nome à companhia e que destruiu concorrentes como Orkut e Google Plus no decorrer dos anos vive hoje sua pior situação em termos de engajamento. Mesmo sendo muito forte em determinados segmentos da sociedade, o Facebook viu o Twitter recuperar terreno como principal ambiente de tendências e discussões na internet. Como compartilhador de vídeos, nunca chegou a ameaçar o Youtube. Hoje, tenta se posicionar como principal plataforma com grupos temáticos para debate.

Por fim, o Instagram, joia da coroa por ser onde se concentra o maior número de formadores de opinião, perdeu o posto terceira rede social com maior número de usuários no mundo para o TikTok.

E se o assunto volta a ser transações financeiras acompanhadas de mensagens, não há nada mais difícil de bater no Brasil do que o Pix, serviço de transferências em tempo real implementado pelo Bacen em novembro de 2020. O Pix caiu no gosto do brasileiro pela facilidade de uso, sendo possível identificar o recebedor apenas pelo número do CPF, CNPJ, email ou celular. Até o fim de fevereiro, mais de 300 milhões de transações nesta modalidade já haviam sido feitas, quatro vezes mais do que o número de TEDs, sistema que predominava até então. Como brinde, ainda é possível enviar uma mensagem à pessoa que está recebendo o valor, razão pela qual muitos acabam utilizando como um bate-papo, transferindo quantias simbólicas.

O Pix foi uma verdadeira revolução no mercado brasileiro. Bancos e instituições financeiras iniciaram uma corrida para que seus clientes cadastrassem o maior número de chaves em cada conta. Estes mesmos bancos não embarcaram com entusiasmo no Whatsapp Pay. De acordo com informações do Neofeed, as instituições apenas firmaram parceria com o Facebook porque não querem passar a imagem de ultrapassadas. Já segundo o Mobile Time, o Facebook está pagando aos bancos neste início de processo.

Entre as principais desvantagens do Whatsapp Pay em relação ao Pix, está a ausência de tarifas, ainda que provisória, para pagamentos para empresas. No novo serviço, quando o recebedor não é pessoa física, ele precisa pagar 3,99% do valor da transação para a plataforma. O Facebook já avisou que pretende integrar o Pix ao seu sistema de pagamentos em breve. Enquanto isso não ocorre, a companhia ainda sofrerá para conquistar território.