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O eclético e saudoso Hugo Pereira do Vale

No ano de 2018, mês de setembro, eu sugeri – e a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras realizou em sua sede – um “Chá Acadêmico Cultural” celebrando a obra e a vida do saudoso imortal, poeta/escritor campo-grandense, conferencista, ensaísta, médico e advogado Hugo Pereira do Vale.  Para esta edição, que foi aberta ao público e bastante concorrida, o convidado foi o jovem escritor e professor Fábio do Vale, neto do homenageado, Doutorando em Estudos de Linguagens pela UFMS, que ministrou palestra temática no evento.

Nascido em 11 de janeiro de 1918, em Campo Grande, onde também faleceu em 20/01/1982, Hugo foi um dos pioneiros da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, que foi fundada como Academia de Letras e História de Campo Grande, em 30/10/1971. Eclético e sempre determinado, pertenceu também à Academia Mato-Grossense de Letras, na qual foi empossado seis anos antes de sua morte (1976), quando foi recepcionado pelo então presidente desta entidade, o escritor cuiabano Gervásio Leite, que assim afirmou em trechos de seu discurso naquela noite: “Caro Hugo Pereira do Vale, ao examinar a vossa obra de poeta e de pensador, o que impressiona é o senso de beleza; e a unidade de pensamento orientado por uma filosofia que bem se ajusta à vossa personalidade. Como poeta, impossível citar qual o mais belo soneto, o poema mais profundo, fruto da vossa sensibilidade apurada pela cultura, talento, sentimento estético e pela vasta experiência do mundo. Nos versos estais por inteiro, alma desnuda, o homem livre, aberto para as festas da Beleza e do Bem, e que trilha a estrada aberta aos seus pés à procura do ideal da perfeição. Ocorre-me, porém, destacar um vosso admirável soneto (Prudência): que lembra um dos grandes poetas brasileiros, o quase esquecido Raul de Leoni”.

Ser humano de profunda espiritualidade, pleno de virtudes, incansável em suas atividades profissionais, conhecedor não somente da língua materna, mas também do castelhano, italiano, inglês e francês, Hugo Pereira do Vale escreveu e publicou significativas e diversificadas obras, como: – Atrás das Muralhas da Razão (ensaio/filosofia, 1973), que tem apresentação de Ivan M. B. Lins, da ABL; – Areia do Deserto (poemas); – A Glória de Cem Anos (conferência); – Discursos de Posse (na ASL e na AML); além das obras inéditas: Sapo, lua e serenata (poesia regional),  A floresta encantada (poesia), O amargor da solidão (poesia), Nas terras do longe (história), O estranho (ensaio), e O homem sem rosto (ensaio).

Também Oficial da Reserva do Exército, formado no RJ, Hugo do Vale participou das campanhas da Itália, incorporado à Força Expedicionária Brasileira, como Oficial de Infantaria. Ainda pelo EB discursou em Haia na Holanda, intervindo em nome do Brasil para cessar conflito interno no país. Posteriormente, como médico, assumiu Chefia no Hospital de Campo Grande e foi professor de Medicina das Universidades de MT e MS. Dentre as condecorações que recebeu pelas atuações nesta área, podemos citar: Medalha da FEB, Medalha de Guerra, Ordem Soberana de Vera Cruz, Medalha da Sovrani Militaris Hospitalisque Ordinis Sancti Georgi, Prêmio Olinto Pilar, Medalha da Academia Nacional de Farmácia, Medalha Olavo Bilac do Ministério do Exército, e Medalha de Medicina da Aeronáutica.

Ao mencionar o poeta carioca Raul de Leoni – e timbrá-lo como “quase esquecido” (vide final do 2º parágrafo acima) – na sua solene saudação de posse a HPV, quem sabe, o hoje saudoso orador Gervásio queria, na ocasião, referenciar esta “conspiração do silêncio” também em relação ao seu notável confrade empossado naquela sessão acadêmica. Pois é certo que, por tudo que fez pela arte/cultura e literatura dos dois Mato Grosso (MT uno e MS), por suas destacadas ações em prol do nosso país e pelas obras que deixou, Hugo Pereira do Vale construiu exemplar história e dignificou o seu viver – e, por tudo isto, não merecia (nem merece) o relativo esquecimento.  Merece sim todo nosso reconhecimento e a nossa gratidão!

 

Rubenio Marcelo – poeta, escritor e compositor

Foto: Arquivo de família