Geral

“Indústria do agro faz valor do campo ficar no Brasil”, artigo do presidente da Fiems, Sérgio Longen

Por Sérgio Longen, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul (Fiems)

Entre a colheita e o mercado, a transformação industrial é o que determina quanto da riqueza gerada pelo agronegócio permanece no país. É nessa etapa que grãos, cana-de-açúcar, madeira e animais se transformam em alimentos, proteínas, biocombustíveis e celulose, agregando valor à matéria-prima, gerando empregos e ampliando as exportações. Essa é a indústria do agro, que tem papel importante na economia brasileira.

Os números mostram o tamanho desse impacto. São Paulo, estado mais industrializado do país, registrou R$ 143,8 bilhões em produção agropecuária em 2023. Depois de processada por usinas, frigoríficos e fábricas de alimentos, essa produção chegou a R$ 431,9 bilhões, um valor agregado de 200%, segundo levantamento do Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul (Fiems).

Em Mato Grosso do Sul, onde 26% do PIB vem do campo, essa engrenagem também tem gerado grande relevância. Em 2023, a produção de R$ 81 bilhões gerada pela atividade agropecuária alcançou R$ 139,6 bilhões após o processamento e a industrialização, uma agregação de valor de 72%. Na região, a indústria do agro responde por 47% do valor bruto da produção industrial local e emprega 81 mil trabalhadores com carteira assinada.

A mesma lógica se reflete no comércio exterior. Em 2025, as exportações da indústria sul-mato-grossense somaram US$ 7,8 bilhões, alta de 14% em relação ao ano anterior. Desse total, 92% vieram da indústria do agro, com destaque para celulose (US$ 3,1 bilhões), carnes (US$ 2,4 bilhões) e açúcar (US$ 783 milhões), que lideram a produção, sendo a China seu principal destino.

Cada cadeia revela uma dimensão desse avanço. O eucalipto dá origem à celulose exportada para 40 países. A cana-de-açúcar e o milho abastecem uma produção de 5 bilhões de litros de etanol por safra e sustentam 34 mil empregos diretos. Na pecuária, a carne bovina ganha destaque com a primeira certificação de carbono neutro do mundo, desenvolvida em Campo Grande.

A experiência sul-mato-grossense traz uma lição para o país. O Brasil já é referência global em alimentos, proteínas, bioenergia e celulose, e a indústria é a ponte entre essa liderança e uma base industrial mais forte. Ela começa antes da porteira, com máquinas, insumos, energia e tecnologia, e continua depois dela, nos produtos de maior valor que alcançam os mercados internacionais. E existe espaço para avançar ainda mais.

Em um mundo que busca segurança alimentar, transição energética e produtos de origem sustentável, poucos países reúnem essa combinação. Convertê-la em estratégia industrial de longo prazo é uma das maiores oportunidades do Brasil. Quando a produção passa pela indústria, o valor fica em empregos, renda e crescimento.

Artigo publicado no jornal Valor Econômico em 21 de outubro de 2026.