Economia

O novo ciclo da riqueza

Mercado global, Brasil e MS se preparam para um novo período de alta no preço das matérias-primas, principalmente de grãos.

Na primeira década deste século, o mundo viu um longo ciclo de valorização das commodities, nome financeiro que se dá a matérias primas e insumos básicos como petróleo, minério de ferro, energia e, sobretudo, grãos. Este boom no valor dos produtos ocorreu em grande parte devido à forte demanda dos países emergentes, principalmente a China, que passava por um forte período de industrialização e esbanjava índices de grande crescimento, ultrapassando os dois dígitos nos anos que antecederam a crise de 2008.

Este período foi especialmente positivo para o Brasil. Com grande oferta de quase todos os produtos enquadrados na valorização, o país viveu seu período de maior ascensão econômica, chegando, no fim de 2011, a figurar na lista dos seis países mais ricos do mundo. A desigualdade caiu e a sociedade viu o surgimento da nova classe média.

Como consequência política deste bom momento, o então presidente Luís Inácio Lula da Silva completou se mandato em 2010, após oito anos no Palácio do Planalto, com 80% de aprovação popular. Não o suficiente, elegeu como sua sucessora a então desconhecida Dilma Rousseff, que disputou a eleição com o veterano José Serra.

O que era um mar de rosas, no entanto, aos poucos foi se transformando num pântano escuro e profundo. Entre os anos de 2013 e 2014, este ciclo foi interrompido, trazendo grandes prejuízos para a economia brasileira e tantas outras, especialmente da América Latina. A irresponsabilidade com os gastos públicos neste período de baixa contribuiu para a enorme crise política e econômica que chegou depois e que foi agravada com a pandemia.

Mas, como o próprio nome já diz, o período de valorização é cíclico – e, em 2021, já se desenha um novo período de alta de preços das matérias-primas, com mais uma vez o agronegócio liderando o movimento, ocasionado em boa parte pela demanda reprimida durante o tempo de pandemia. Desde março do ano passado o preço da soja e do milho vem subindo aos maiores níveis nos últimos seis anos. Segundo algumas das maiores instituições financeiras do mundo, ainda há espaço para subir mais.

“A recente alta dos preços de petróleo tem sido parte frequente das manchetes de jornais. Assim como a alta dos preços de soja e milho, ou do minério de ferro e do aço. O que está por trás disso é, em nossa visão, uma alta generalizada de preços de commodities.​Os preços de commodities também passam por ciclos. Esses ciclos são impactados pelos ciclos econômicos, mas também são muito influenciados pela dinâmica de oferta e demanda específica de cada uma”, explicou a gestora de recursos Dahlia Capital, em carta enviada a investidores no mês de março.

É certo, porém, que este novo ciclo será bem diferente do anterior. O primeiro foi de uma valorização generalizada, de vários produtos em todo o mundo, impulsionado pelo crescimento chinês. Este segundo, segundo especialistas, deve ser menos intenso, com produtos específicos se valorizando em regiões determinadas e, além de tudo, observando a preocupação com a sustentabilidade.

De abril do ano passado até agora, as cotações em dólar das 19 principais commodities agrícolas, metálicas e de energia haviam subido, em média, 40%, de acordo com o índice Commodity Research Bureau (CRB), indicador que é referência no comportamento das matérias-primas.

De acordo com o análise do jornal O Estado de S. Paulo, ainda não está claro, entre os analistas, se o mundo caminha para um novo “superciclo” das commodities, nos moldes daquele que se iniciou na primeira década dos anos 2000 – os preços atuais ainda estão abaixo do pico registrado pelo CRB, em 2011.

Ainda assim, o agronegócio brasileiro deve ser bastante beneficiado, ainda mais por conta do processo de desvalorização do real frente ao dólar e outras moedas, que foi acentuado em 2020.

Nos últimos 12 meses, a alta dos preços da soja, por exemplo, superou 60%. Todo esse ganho deverá se refletir também no valor das ações das empresas exportadoras por aqui e atrair investimentos.As commodities respondem por mais de 60% de tudo o que é vendido pelo país lá fora. Com a valorização do dólar frente ao real, a balança comercial tende a apresentar um saldo recorde.

Pelas projeções da MB Associados divulgadas ao jornal O Globo haverá forte expansão tanto da agropecuária, a mais intensa desde a crise global de 2008, quanto da indústria extrativa, que deve ter o maior pico de exportações desde 2011. Já a exportação de manufaturados deve ficar estagnada em 2021 e crescer apenas 1%.

Ao mesmo jornal, João Frota, economista da Senso Corretora, observa que, na Bolsa, além dos papéis das gigantes, ações de muitas empresas ligadas ao agronegócio e à logística vão refletir o bom momento das commodities agrícolas.

Para se ter uma ideia, os embarques de soja do Mato Grosso do Sul atingiram 654 mil toneladas no mês de março, segundo o boletim de exportaçãoda Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso do Sul (Aprosoja MS). A China segue como principal destino, com 75%  dos grão brasileiros, seguida pela Argentina (16%).O milho sul-mato-grossense apresentou um aumento de 26% na quantidade embarcada se comparada ao ano anterior, chegando a exportação de 434 mil toneladas no primeiro trimestre de 2021.