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50 anos de A Laranja Mecânica

Filme de Stanley Kubrick é uma das maiores reflexões a respeito da natureza humana

Por Reinaldo Adri

Na visão de um leigo desinteressado, pode parecer um filme estranho com personagens caricatos, mas qualquer um que se aventure a ver e conhecer “A Laranja Mecânica”, de 1971, saberá que ali existe bem mais que uma obra cinematográfica convencional. Hoje, cinquenta anos depois de seu lançamento, o filme continua proibido em Singapura e, até pouco tempo atrás, a Coréia do Sul também impedia sua exibição. As acusações eram, e ainda são várias: incentivo ao fascismo, apologia à violência etc. Polêmicas pequenas se confrontadas com o valor artístico das obras de Stanley Kubrick.

Ao terminar de rodar “2001: uma odisséia no espaço”, o diretor havia se comprometido a filmar a biografia daquele que, para ele, era o homem mais importante da história, Napoleão Bonaparte. Seria uma obra ambiciosa, com David Hemmings como protagonista e Audrey Hepburn interpretando Josefina, porém, a MGM preferiu não investir no projeto. Com isso, Kubrick, vendo que o estúdio estava passando por profundas mudanças em sua direção, preferiu dar vida a uma obra escrita pelo inglês Anthony Burges e publicada em 1962.

A narrativa conta a história de Alex Delarge (Malcolm McDowel) um adolescente fã do compositor clássico Ludwig Van Beethoven e líder de uma gangue de jovens que cometia crimes cruéis. Ao ser capturado pela polícia, Alex é condenado e passa a ser cobaia de um tratamento de choque objetivando regenerar os criminosos de alta periculosidade. Neste tratamento, ele é forçado a assistir imagens de guerras e sofrimento ao som da música de seu ídolo de forma que comece a sentir náuseas frente aos seus próprios impulsos violentos. Apesar de dar certo, a técnica acaba se tornando um obstáculo para que ele consiga se ressocializar.

A atuação de McDowel, inclusive, é algo de se tirar ao chapéu. Dando vida a um personagem que no início da projeção era onze anos mais novo, que o ator, ele teve sua córnea lesionada em uma das cenas em que suas pálpebras eram presas e seus olhos recebiam constantemente pingos de colírio.

A intenção do diretor Stanley Kubrick era ilustrar sua tese de que o ser humano é um selvagem ignóbil. Quem conhece a obra do cineasta sabe da fusão que ocorre entre a última imagem de “2001”, o primeiro plano de um bebê, simbolizando o futuro, com a primeira imagem desse filme, um primeiro plano de Alex, sintetizando a brutalidade presente em uma pessoa.

“Alex representa nosso inconsciente, que carece de barreiras: cada um de nós mata e viola. Os que assistem ao filme sentem essa espécie de identificação como ele. A hostilidade daqueles que o detestam nasce da incapacidade de aceitar o que são realmente”, disse Kubrick. Ainda segundo o diretor, o homem precisa decidir ser bom ou mal, ainda que decida ser mal. Privá-lo da escolha é reduzir-lo a um estado inferior ao ser humano, a uma laranja mecânica.

O nome do livro e do filme – do inglês Clockwork Orange – se refere à junção daquilo que é orgânico com o que é mecânico. O autor Anthony Burgess aproveitou para fazer um jogo de palavras com o vocábulo malaio “ourang”, que significa “homem” ou “pessoa”.