Para Pedro Bandeira, um dos maiores nomes da literatura infanto-juvenil brasileira, os jovens jamais mudarão seu comportamento seja qual for a geração
Impossível falar de literatura infanto-juvenil no país e não citar Pedro Bandeira. Uma das maiores referências no Brasil quando o assunto são os livros, o escritor completa 80 anos de idade em 2022 produzindo como nunca. Durante sua vida profissional, trabalhou como ator, diretor e cenógrafo. Como escritor, iniciou sua carreira com as primeiras histórias infantis publicadas em revistas de banca, em 1972. Desde então, já vendeu dezenas de milhões de exemplares, para crianças e jovens de várias gerações. Agora, o escritor encara a revolução digital com serenidade e entende que as crianças de hoje não são muito diferentes das antigas.
“Naturalmente, durante os mais de 50 anos em que trabalho com edições e 40 como escritor, para crianças e adolescentes, muita coisa mudou. Até o final dos anos 90 não havia vagas para todas as crianças na escola e hoje já temos escola para todos. Mas, as crianças e os jovens creio que jamais mudarão seu comportamento e suas sensibilidades em tempo algum. Se conquistarem o pleno letramento, eles lerão e fruirão a leitura. Nosso problema é que esse letramento pleno não vem sendo alcançado. Muitos alunos chegam ao nono ano ainda com imensa dificuldade de compreensão leitora”, explica.
Ele lembra que só uma elite bem pequena tem acesso livre à modernidade tecnológica. Nestes casos, surgiu sim um problema educacional, pois é perceptível que a maioria dos pais deixou as crianças muito livres para o uso dessas ferramentas. Para Pedro, seria preciso limites, sugeridos ‘com carinho’, mas com firmeza. “Quando o filho já está crescido e foi deixado livre para decidir o que fazer e quando fazer, esses limites transformam-se em imposições descabidas e resultam em brigas entre pais e filhos”.
Mas, além do lado da criança, existe o lado do escritor. Neste sentido, Pedro entende que é preciso atenção. “Se Shakespeare citasse termos e tecnologias de seu tempo como enredo de suas peças, elas não teriam tornado-se clássicos como se tornaram. Mas esse inglês só escreveu sobre emoções humanas e isso não muda: no século XVII, hoje ou no século XXX, as pessoas amarão, sentirão ciúmes, raiva, ambição, abandono, cobiça, ódio e tudo o mais que não há invenções que possam anular esses sentimentos e esses são os conteúdos das peças de Shakespeare”.
O autor entende que um livro é feito para durar, independentemente da época em que seja lido. “Se eu me distrair e citar, por exemplo, a marca de um automóvel, o nome de um programa de computador, usar uma gíria “da moda” ou regionalismos, meu livro correrá sério risco de desaparecer. Estará datado”, adverte. Não é à toa que muito dos livros de Pedro que foram publicados antes da chegada da internet e de tudo mais que veio com ela fazem sucesso até hoje. “Nunca precisei adaptar nada do que escrevi, porque nada muda nas emoções humanas e é disso que eu trato. Este é o motor da Arte.”
O autor diz ter certeza de que o livro impresso sobreviverá a toda essa revolução tecnológica, como publicação de luxo. As edições virtuais, segundo ele, serão mais usadas para romances, dicionários e publicações didáticas. “Num tablet bem leve, posso carregar uma tonelada de livros para qualquer lugar. A tecnologia é levinha, levinha”.
Pedro também entende que o fato da proliferação de novas ferramentas terem permitido que as próprias crianças e jovens produzissem conteúdos, a serem consumidos por um público da mesma idade, é uma ‘maravilha’. “Que bom que qualquer jovem pode se manifestar, escrever o que pensa e até escrever besteira nessas redes. Só os adultos podem escrever besteira?”, conclui.
Por Reinaldo Adri






