Autor Ilan Brenman defende que a tecnologia deve ser usada com moderação e que não oferece a mesma experiêcia de um livro
Considerado um dos mais importantes autores de livros infantis no Brasil, Ilan Brenman tem autoridade para opinar sobre o hábito de leitura dos jovens e qual o impacto da tecnologia nesse processo. Além de ter cursado Psicologia pela PUC-SP, Ilan tem mestrado e doutorado em Educação pela USP e já publicou mais de 70 obras, com mais de 3 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Seus livros já foram publicados em diversos países, como França, Itália, Alemanha, Polônia, Espanha, Portugal, Suécia, Dinamarca, México, Argentina, Coreia e China. Hoje, embora entenda que a ferramentas tecnológicas não influenciaram o conteúdo das histórias e nem os dilemas principais dos jovens, ele defende moderação no uso delas.
De acordo com Ilan, as crianças das gerações passadas liam menos porque estavam menos na escola e também porque tinham menos acesso aos livros. Ao mesmo tempo, essa geração que começou a ler mais enfrenta o desafio da competição do livro com o mundo digital.Neste sentido, tanto os pais quanto as escolas devem estar atentos ao comportamento das crianças para identificar quando se trata de um consumo saudável. “O digital é o caminho mais fácil, um prato de doces na frente delas, irrecusável. Tem uma frase que eu gosto muito que diz: a tecnologia é a resposta, mas qual é mesmo a pergunta? É preciso tomar cuidado para não aceitar de primeira tudo que ela tem para oferecer, achando que aquilo lá vai mudar a nossa vida”.
Ele lembra que diversos estudos, realizados em diferentes partes do mundo, concluíram que a tecnologia em excesso faz mal para as crianças e jovens e que a literatura entra justamente com a função de contrabalancear esta situação. “O jeito de contar histórias no mundo da tecnologia é muito fragmentado. Você não tem atenção, concentração e envolvimento nessa coisa de você ficar vendo filmes com celular na mão. Você olha para o filme e para o celular, fragmentando toda experiência. A história do mundo real é mais coesa e traz mais equilíbrio e força para nossa mente”.
Em relação ao conteúdo das histórias no século 21, Ilan lembra que hoje os principais produtos de entretenimento, como as séries e filmes de streaming bebem muito da fonte literária. “Roteiristas, diretores e autores criam seus produtos baseados em literatura, em histórias contadas há muito tempo que são recriadas por um mundo audiovisual. As histórias lidam com temas centrais, como sonhos e desejos. As máquinas progrediram, mas o ser humano não progrediu tanto assim. Por isso, nós gostamos tanto dessas histórias, que vão continuar a dialogar por séculos com o coração humano em qualquer época”.
Assim como Pedro Bandeira, Ilan recorda que o ser humano possui dilemas atemporais, relacionados à sua essência, que continuarão os mesmos ainda que tenhamos convivência com os robôs mais sofisticados. Esta é a razão de suas histórias de duas décadas atrás serem tão bem aceitas pelas crianças de hoje. “Nós temos medo da morte, da solidão, queremos ser felizes, queremos companhia, temos ciúme, somos corajosos, medrosos, seres às vezes violentos, mas buscamos a paz e a tolerância”.
A realidade apresentada pelo autor justifica, por exemplo, a força do livro impresso no mundo em que quase tudo já está atrás das telas. Para ele, o produto livro oferece uma experiência única. “Em várias épocas da história humana, houve o anúncio da morte do livro impresso. Mas isso nunca aconteceu porque a relação que temos com um livro impresso é perfeita. No mundo digital, precisamos de um suporte que tem uma tela, com luz, onde não ficamos só no livro, pois tem links, barulhos de notificação e inúmeras distrações. No livro impresso, existe um silêncio, um ativo em falta no mundo de hoje”.
As redes sociais, conclui o escritor, onde os jovens interagem e produzem seu próprio conteúdo não podem ser consideradas como concorrentes dos livros. Um dos melhores exemplo é a sua própria experiência visitando e participando de diversas bienais pelo mundo, de acordo com ele cheias de jovens, que buscam cada vez mais a literatura. “Eles perceberam que esse mundo das redes sociais e desse tipo de conteúdo é um mundo legal, bacana, uma parte da vida, só que não responde a tudo que está dentro da gente. Aliás, muitas vezes ela só atrai mais angústia e perguntas”.
Por Reinaldo Adri






