Neurocientista francês defende que o uso demasiado da tecnologia digital pelos jovens desvia a atenção da literatura, estudo e das artes, empobrecendo o cérebro humano
Entre as visões mais pessimistas sobre a influência da tecnologia na infância e na adolescência, está a do neurocientista Michel Desmurget, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França. Em seu último livro, chamado A Fábrica de Cretinos Digitais, publicado pouco antes da pandemia, mas que só no último mês ganhou sua versão em português, ele defende que o uso demasiado das telas, seja por computadores, celulares ou tablets, acarreta sérios malefícios ao corpo humano, principalmente entre os mais jovens.
O uso da tecnologia digital – smartphones, computadores e tablets- pelas novas gerações tem sido absolutamente astronômico. Para crianças de 2 a 8 anos de idade, o consumo médio é de cerca de três horas por dia. Entre 8 e 12 anos, a média diária gira em torno de cinco horas. Na adolescência, esse número sobe para quase sete horas, o que significa mais de 2.400 horas por ano, em plena fase de desenvolvimento intelectual. Com a pandemia, os números ficaram ainda mais acentuados.
O autor sustenta que o uso das telas está atrelado a questões como obesidade, problemas cardiovasculares, expectativa de vida reduzida, agressividade, depressão, empobrecimento da linguagem, dificuldade de concentração e memória.
Ele propõe a primeira síntese de vários estudos que confirmaram os perigos reais e alerta para as graves consequências de continuarmos a promover sem senso crítico o uso dessas tecnologias.
“Os pesquisadores observaram em muitas partes do mundo que o QI aumentou de geração em geração. Mas recentemente, essa tendência começou a se reverter em vários países.É verdade que o QI é fortemente afetado por fatores como o sistema de saúde, o sistema escolar, a nutrição etc. Mas se considerarmos os países onde os fatores socioeconômicos têm sido bastante estáveis por décadas, o efeito começa a se inverter.
Nesses países, os “nativos digitais” são os primeiros filhos a ter QI inferior ao dos pais. É uma tendência que foi documentada na Noruega, Dinamarca, Finlândia, Holanda, França e outros países”, disse em entrevista à rede britânica BBC.
De acordo com Desmurget, algumas causas para este fenômeno são a diminuição da qualidade e quantidade das interações intrafamiliares, essenciais para o desenvolvimento da linguagem e do emocional; diminuição do tempo dedicado a outras atividades mais enriquecedoras (lição de casa, música, arte, leitura, etc.); perturbação do sono, superestimulação da atenção, levando a distúrbios de concentração, aprendizagem e impulsividade; subestimulação intelectual, que impede o cérebro de desenvolver todo o seu potencial; e o sedentarismo excessivo que, além do desenvolvimento corporal, influencia a maturação cerebral.
Para ele, as atividades relacionadas à escola, trabalho intelectual, leitura, música, arte e esportes têm um poder de estruturação e nutrição muito maior para o cérebro do que as telas. “O cérebro pode ser comparado a uma massa. No início, é úmida e fácil de esculpir. Mas, com o tempo, fica mais seca e muito mais difícil de modelar. O problema com as telas é que elas alteram o desenvolvimento do cérebro de nossos filhos e o empobrecem”.
No entanto, o pesquisador toma o cuidado de não ser alarmista demais e lembra que a tecnologia também traz muitos benefícios. “Ninguém diz que a revolução digital é ruim e deve ser interrompida. Eu próprio passo boa parte do meu dia de trabalho com ferramentas digitais. E quando minha filha entrou na escola primária, comecei a ensiná-la a usar alguns softwares de escritório e a pesquisar informações na internet”. O problema, segundo ele, é que quando uma tela é colocada nas mãos de uma criança ou adolescente, quase sempre prevalecem os usos recreativos mais empobrecedores sociais.
Mas existe uma salvação. Alguns estudos mostram que é mais fácil para crianças e adolescentes seguirem as regras sobre telas quando a razão é explicada e discutida com eles. Além disso, há alguns princípios importantes a serem seguidos, como não poder usar telas antes pela manhã antes de ir para a escola, ou à noite antes de ir para a cama, ou mesmo quando estiver com outras pessoas.
“Costumo ouvir que os nativos digitais sabem de maneira diferente. A ideia é que embora apresentem déficits linguísticos, de atenção e de conhecimento, são muito bons em outras coisas. A questão está na definição dessas ‘outras coisas’. Vários estudos indicam que, ao contrário das crenças comuns, eles não são muito bons com computadores. Um relatório da União Europeia explica que a baixa competência digital impede a adoção de tecnologias educacionais nas escolas.Outros estudos também indicam que eles não são muito eficientes no processamento e entendimento da vasta quantidade de informações disponíveis na internet. Eles são obviamente bons para usar aplicativos digitais básicos, comprar produtos online, baixar músicas e filmesetc”, finaliza.






