Colunistas

Fevereiro Sangrento

Por Francisco Mineiro

Amigo leitor,

No longínquo ano de 1945, o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro foi a 11 de fevereiro. Enquanto milhares de foliões, no Brasil, divertiam-se esquecidos da cruenta guerra que assolava o mundo, 25.000 brasileiros sofriam na pele os horrores do maior conflito da História humana, a Segunda Guerra Mundial. Naquele período, a Força Expedicionária Brasileira ultimava os preparativos para o que seria sua mais marcante vitória, a Batalha de Monte Castello.

O dito Monte era uma elevação estratégica, dominando um eixo de estradas. Fazia parte da linha defensiva organizada pelos exércitos nazifascistas, a chamada Linha Gótica. Construída com mão de obra escravizada, continha mais de 2.000 casamatas e pontos fortificados, e ia do litoral Oeste ao litoral Leste da Itália, impedindo o avanço dos Aliados.

Era imprescindível romper a Linha Gótica para prosseguir em direção á Alemanha. O comando do V Exército Norte-americano, que enquadrava a Força Expedicionária Brasileira, planejava ocupar a cidade de Bolonha antes do Natal de 1944.

Em 12 de novembro de 1944 foi desfechado o primeiro ataque contra o Monte Castello e as elevações vizinhas: Belvedere e Della Torraccia. A tropa aliada chegou ao topo do Monte, mas um poderoso contra-ataque alemão forçou os atacantes a recuar. Novos ataques aconteceram em 29 de novembro e em 12 de dezembro de 1944 – todos fracassados, com elevadas baixas entre os brasileiros e norte-americanos.

O General Mascarenhas de Moraes, Comandante da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE), defendia que somente um ataque em larga escala, em toda a frente divisionária, poderia obter sucesso.

O excepcionalmente rigoroso inverno de 1944/1945 paralisou as operações, restritas a patrulhamento e vigilância. Finalmente, o Comando aliado aceitou a estratégia proposta por Mascarenhas de Moraes. Ao amanhecer do dia 21 de fevereiro de 1945, os três Regimentos da DIE atacaram simultaneamente em direção ao Monte Castello, enquanto a experiente 10ª Divisão de Montanha norte-americana atacou o Monte Belvedere.

Sangue, dor, morte, suore lágrimas foram a marca do dia 21 de fevereiro. A guerra só é bonita para poetas e escritores, nunca para soldados, ou para os civis pegos em meio às operações militares. 417jovens brasileiros e 47 alemães morreram ou foram feridos naquele fatídico 21 de fevereiro. Quando o sol se pôs, o Monte Castello era dos brasileiros. Que ainda conseguiram ajudar os norte-americanos a conquistar Belvedere…

A partir do rompimento da Linha Gótica, as operações foram praticamente de perseguição ao Exército alemão.

Caro Leitor, desde antes da criação da Força Expedicionária Brasileira, passando por sua sofrida atuação em terras distantes, até nossos dias, a heroica participação de brasileiros naquela Guerra tem sido distorcidaou desprezada por razões políticas.

Quando a Guerra começou, em 1939, o Brasil era governado por Getúlio Vargas, num modelo de Estado escandalosamente parecido com o fascismo de Mussolini. Muitos brasileiros eram simpáticos a Hitler, cuja faceta mais conhecida, na época, era do homem que tirou a Alemanha da miséria. Quando políticas americanas e interesses brasileiros na tecnologia siderúrgica americana convergiram para nosso país ir à guerra, a FEB não era uma unanimidade. Circulou a piada que “era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil lutar na Guerra”. Mas… a cobra fumou.

A censura de guerra bloqueava cartas e fotos mandadas pelos pracinhas com descrições e cenas de batalhas ou outros horrores. Só chegavam relatos dos dias de descanso e fotografias de pontos turísticos, reforçando o discurso de que os soldados estavam apenas viajando às custas do contribuinte…

No período1964-1985, diversos setores acadêmicos e intelectuais consideraram que atacar os heróis da História pátria, incluindo os ex-combatentes da II Guerra, era uma forma de resistir e de desqualificar o “Governo Militar”. E novamente aqueles brasileiros, que lutaram, sofreram e morreram combatendo o nazismo nas neves italianas, foram vítimas de chacotas, de difamação, de desprezo.

Talvez seja por isso que, enquanto em outros países os heróis de guerra sejam objeto de filmes, de culto e de lições escolares, em nosso Brasil grande parte da população sequer sabe que nosso Exército lutou contra o fascismo. Poucos sabem que jovens brasileiros deram seu sangue pela liberdade que hoje usufruímos sem os cuidados que ela exige…

Amigos, que a memória daqueles homens e mulheres seja preservada para as gerações que virão, eles fizeram por merecer, no Monte Castello, em Montese e em muitas outras batalhas…

Até a próxima.

Monte Castelo, soldados descansando no dia seguinte à Batalha
Monte Castelo hoje, com o monumento em homenagem aos combatentes.