Por Francisco Mineiro
Amigo leitor, seguimos em nossa série sobre personagens de nossa História que são admiráveis, mas são pouco conhecidos. Você já ouviu falar de Alexandre de Gusmão? Pois esse homem merece uma estátua em cada cidade da Amazônia e do Oeste, inclusive nossa Campo Grande. Sem ele, o Brasil iria começar no Atlântico e acabar no Rio São Francisco, sendo o restante um conjunto de pequenos países de língua espanhola.
Alexandre de Gusmão nasceu em Santos, SP, em 1695, um dos doze filhos do cirurgião Francisco Lourenço Rodrigues, recebendo o nome de “Alexandre Lourenço”.
Sua família o encaminhou ao Colégio de Belém, na Bahia. O fundador e diretor do Colégio era o padre Alexandre de Gusmão, que logo percebeu a inteligência superior do menino. Tornou-se seu protetor, e o encaminhou para o Colégio das Artes. Nesse, em apenas três anos, nosso personagem terminou estudos de Filosofia, Ética, Metafísica, Latim, Retórica e Lógica. Foi daquele padre e mentor que Alexandre e seu irmão emprestaram o sobrenome “Gusmão”. Com quinze anos, Alexandre mudou para a Capital do Reino, Lisboa, onde seu irmão Bartolomeu de Gusmão já exercia cargos públicos.
Em 1715, com apenas vinte anos, Alexandre de Gusmão foi nomeado Secretário da embaixada portuguesa na corte de Luís XV. Aproveitou a permanência em Paris para estudar Direito na renomada Universidade de Sorbonne. Quatro anos depois retorna a Portugal, atuando em Coimbra. Em breve, foi enviado pelo Rei para negociações com o Rei da França, e depois a Roma, onde representou os interesses portugueses por sete anos. Ao longo do tempo, sua viva inteligência e esperteza o tornaram um valioso defensor dos interesses de Portugal numa Europa conturbada. O Rei nomeou-o Secretário Particular em 1740. Era uma honra extrema, para alguém nascido numa colônia. Como disse o Marquês de Pombal: ““Sua Majestade D. João V não distingue seus vassalos pela cor; distingue-os pela inteligência”.
Portugal e Espanha travavam uma disputa pela posse das Amáricas desde sempre. Em 1580 os dois reinos haviam sido unificados, a chamada “União Ibérica”. A partir daí, colonos, garimpeiros, caçadores de escravos e sacerdotes portugueses foram se estabelecendo bem além do antigo Tradado de Tordesilhas. Quando os Reinos novamente se separaram em 1640, disputas militares e diplomáticas foram se sucedendo, principalmente por causa da Colônia do Sacramento, hoje parte do Uruguai. É que a posse de tal região permitia o controle da navegação da parte central do continente, inclusive das minas de ouro do Mato Grosso e de prata do Peru e Bolívia.
A partir de 1746, delegações de Portugal e Espanha começaram trabalhos para um tratado definitivo de fronteiras. O Chefe da delegação portuguesa era o Visconde de Nova Cerveira, mas quem realmente atuou foi Gusmão. Ele conseguiu convencer todos os envolvidos a adotar o princípio do direito romano do “Uti Possidetis, Uta Possideatis”. Significa que quem está usando um território obtido pacificamente, tem direito sobre ele. Assim, todos os territórios ocupados por portugueses na América, deveriam ser portugueses. Aqueles ocupados por espanhóis no Oriente, idem. Gusmão também propôs a troca da Colônia do Sacramento pelas terras dos Sete Povos das Missões, ajudando na unidade do território.

Mas o maior argumento foi o denominado “Mapa das Cortes”. É um mapa com espaços distorcidos, dando aos espanhóis uma noção de que a Amazônia e o Oeste seriam muito menores do que a realidade, parecendo vantajoso ao Rei espanhol trocá-los pelas Ilhas Filipinas.
O coroamento do trabalho foi a assinatura do Tratado de Madri, em 13 de janeiro de 1750. As fronteiras da Colônia Portuguesa ficaram muito próximas do que é o nosso imenso e lindo Brasil de hoje, três vezes maior do que o previsto em Tordesilhas.. Houve reveses, o acordo foi anulado em 1761, mas retomado em 1777. Um tratado é, na verdade, apenas um papel. Muita pólvora ainda foi gasta para que o combinado em Madri em 1750 valesse até nossos dias.
Então, querido leitor, quando você vir o mapa em que o Brasil é um colosso, lembre-se da dívida com os soldados que lutaram por essas fronteiras, mas também com o diplomata que as desenhou há quase 300 anos.
Até a próxima.






