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Heróis Esquecidos – O “Padre Voador”

Por Francisco Mineiro

Amigo leitor, continuamos a escrever sobre personagens brasileiros que são pouco conhecidos, dada nossa proverbial falta de memória histórica, mas que mereciam um maior destaque. Falei no texto anterior sobre Alexandre de Gusmão, o diplomata nascido em Santos e que, por seu inteligente trabalho diplomático, simplesmente triplicou o tamanho do Brasil.

Abordaremos hoje um irmão de Alexandre, o Padre Bartolomeu de Gusmão, que recebeu a alcunha de “Padre Voador”.

Bartolomeu nasceu em Santos, em dezembro de 1685, quarto dos doze filhos do cirurgião Francisco Lourenço Rodrigues. Com seu irmão Alexandre, foi estudar no Seminário de Belém, na Bahia, fundado pelo padre Alexandre de Gusmão.

Em homenagem a esse, tanto Bartolomeu quanto Alexandre Lourenço adotou o sobrenome “Gusmão”. Muito cedo, Bartolomeu mostrou-se dotado e uma inteligência extraordinária. Inventou um sistema para elevar a água para uso do Colégio, num desnível de mais de cem metros. Concluídos os estudos, ingressou por dois anos na Companhia de Jesus, em Salvador, donde se transferiu para Lisboa, tornando-se protegido do poderoso Marquês de Fontes. Logo retornou ao Brasil, onde obteve a ordenação como Padre católico. Também, solicitou a patente do sistema que havia inventado na infância para elevação de água. Foi a primeira vez que um brasileiro obteve uma patente de invento expedida pelo governo português.

Em 1708, o padre Bartolomeu retorna a Portugal, indo trabalhar na Corte do Rei D. João V. Em 1709 solicitou patente de um “instrumento para se andar pelo ar”. Era o primeiro modelo de um balão de ar quente que se tem notícia.

O assunto causou celeuma na corte portuguesa e curiosidade em toda a Europa. Bartolomeu era ajudado por D. Joaquim Francisco, filho do Marquês de Fontes. O rapaz, de 14 anos era exímio desenhista. Cansado do assédio de cortesões, curiosos e até espiões, Joaquim Francisco decidiu criar uma farsa. Com a concordância do pai e do inventor Bartolomeu de Gusmão, ele desenhou uma espécie de barco com asas, cauda e cabeça de ave, com uns fantasiosos “globos magnéticos”. O objetivo era desviar a atenção do princípio do ar quente, e sugerir que a máquina voava “por magnetismo”. O desenho, que recebeu o nome de “A Passarola”, difundiu-se pelo mundo, confundindo os espiões. Mas, até hoje, algumas fontes apresentam a “Passarola” como sendo o invento de Gusmão.

Como se vê, “fake news” não são novidade. Uma mentira, repetida e publicada, pode acabar impregnando-se até nos relatos históricos, travestida de verdade.

Na prática, em agosto de 1709 Bartolomeu de Gusmão demonstrou seus balões para inúmeras autoridades, inclusive o futuro Papa Inocêncio XIII. Foram diversos vôos documentados e com testemunhas, tanto dentro de salões palacianos quanto ao ar livre.

Mas a invenção não foi bem aceita. Havia o risco de incêndios, já que todos os “aeróstatos” eram movidos a ar aquecido por chamas. Não houve meios para construir balões grandes, que levassem carga útil ou pessoas. A navegação dependia dos ventos, instáveis. E,para piorar, havia as intrigas da corte, a inveja contra um padre brasileiro que se destacava entre nobres lusitanos. Isso tudo foi, pouco a pouco, minando o prestígio do inventor.

Entre 1712 e 1716, Bartolomeu de Gusmão viajou pela Europa. Em sua estada na Holanda, patenteou um sistema para drenagem do porão de navios.

De volta a Lisboa, o padre brasileiro foi objeto de perseguições e maledicências na Corte Portuguesa. Tornou-se alvo da Inquisição, sendo acusado de bruxaria: onde já se viu fazer coisas voarem? O pior era a “acusação” de simpatia para com os judeus. As ameaças agravaram-se, e ele fugiu para Espanha em setembro de 1724. Em questão de meses, adoeceu gravemente e veio a falecer em 18 de novembro de 1724, com apenas 38 anos.

Versão francesa do falso projeto “Passarola”.

O renome pela invenção dos balões acabou com os irmãos Montgolfier, franceses, que realizaram o primeiro voo tripulado em 1783.

Infelizmente, na corte portuguesa, a inveja sobrepôs-se ao reconhecimento da genialidade, e o Reino perdeu a oportunidade de prestigiar e financiar um invento que poderia ter trazido vantagens, até mesmo militares, a Portugal.

Será que em nossos dias, essa História se repete?

 

Até a próxima, amigos!