Colunistas

João, O Bravo

Querido Leitor:

Alguns personagens reais têm uma trajetória de vida e feitos tão interessantes que merecem ser revisitados de vez em quando. Por isso, ocasionalmente, volto a escrever nesta coluna sobre algumas pessoas marcantes, principalmente aquelas menos conhecidas. É o caso, por exemplo, do Tenente João, apelidado “O Bravo”.

Em 27 de dezembro de 1864 o Paraguai invadiu o Mato Grosso, de surpresa. Dez navios e 3.200 combatentes sitiaram o Forte de Coimbra, que contava com uma centena de soldados. O Tenente João Mello lá estava, com a esposa e uma filha de ano e meio. Foi ele, mesmo sendo artilheiro, quem comandou a infantaria dos defensores. A cerrada fuzilaria impediu os paraguaios de invadir o Forte logo no primeiro dia de ataque. Mais de dois mil tiros foram disparados a cada hora de assédio. A munição escasseava, e, ao anoitecer de 28 de dezembro, o Comandante, Tenente Coronel Porto Carrero, decidiu pela retirada. A outra opção seria combater até acabar a munição, e depois viria a morte para os homens e a humilhação para as mulheres. No escuro da noite, eles conseguiram escapar e ir avisar Corumbá sobre a aproximação do inimigo.

Nessa cidade instalou-se o pânico, motivando um fato vergonhoso em nossa História. O Comandante militar (que depois respondeu à Justiça Militar por isso) e as autoridades civis decidiram evacuar a cidade. Quem tinha embarcações, particulares ou funcionais, embarcou com seus pertences e subiu o rio em direção a Cuiabá. Quem não tinha barco nem dinheiro, tentou fugir para os pantanais, serras e matas. Nos dias seguintes, muitos foram capturados e mortos ou levados como escravos para o Paraguai.

João Mello argumentou contra a evacuação, mas era apenas um Tenente. Antes de embarcar, certifica-se que a pólvora deixada para trás seria atirada no rio, para não cair nas mãos dos invasores. Subiu na canhoneira a vapor Amambaí. Esse barco veloz logo alcançou uma lenta escuna a velas chamada Jacobina. Na escuna estavam soldados e centenas de civis, que logo começaram a aclamar pelo renomado Tenente Mello. Sabiam que seriam alcançados pelos vapores paraguaios, e viram na liderança de Mello um fio de esperança.

Mello renunciou à segurança pessoal e mudou para a embarcação lenta. Após um dia navegando rio acima, Mello percebeu que os vapores paraguaios Ypora e Rio Apa, fortemente armados, iriam fatalmente alcançar a escuna. Decidiu então desembarcar todas as pessoas e afundar o barco para que o inimigo não o capturasse. Iniciou então uma fuga por terra, uma jornada épica, desesperada, heroica, inacreditável e, hoje em dia, pouquíssimo conhecida.

Seu grupo era composto de 230 praças de diversos quartéis, e 249 mulheres, crianças e idosos.  Na saída, Mello reuniu a munição disponível para defesa e caça de alimentos: 220 tiros, apenas. Sob a liderança do Tenente João de Oliveira Mello, esta heterogênea comitiva percorreu 350 quilômetros de trilhas em campos e florestas, 125 quilômetros de pantanal, e 175 quilômetros de navegação, já no rio Taquari.

Mesmo uma tropa treinada, com o equipamento de hoje, sofre para atravessar os ínvios caminhos do Pantanal. Imagine o caro Leitor um grupo com crianças e idosos. Caminhavam em terra quase desconhecida, abrindo trilhas e seguindo picadas, tentando passar de fazenda em fazenda, num tempo em que dezenas ou centenas de quilômetros desabitados separavam uma sede da outra. Alguns índios, fugindo também dos paraguaios, uniram-se aos retirantes, ajudando muito. O tempo todo, navios paraguaios patrulhavam os rios, e desembarcavam tropas para tentar rastrear e capturar os fugitivos. A disciplina e o exemplo de Mello fizeram que os fugitivos continuassem, dias após dia, quilômetro após quilômetro.

Foram quatro meses, de 04 de janeiro a 30 de abril de 1865, de marcha, fadigas, cansaço, fome e esforço. Mesmo assim, apenas dois homens, dos quase quinhentos fugitivos, não chegaram ao destino, Cuiabá.

Terminada a sangrenta guerra, Mello prosseguiu em sua carreira, e findou seus dias como General de Divisão do nosso Exército.

A avassaladora indústria cultural norte-americana resgata até as mais difusas figuras de sua História e transforma em heróis e vilões de filmes e livros. Mesmo com as limitações da indústria cultural brasileira, a epopeia do Tenente João de Oliveira Mello mereceria um filme épico. Que seja digna, pelo menos, de uma oração e de um nosso pensamento de admiração.

Até a próxima.

 

Por: Francisco José Mineiro Junior.