Por Vivianne Nunes
A noite vai caindo e com ela, os ombros pesando um pouco mais. A sensação é a mesma de ter carregado o mundo nas costas o dia todo. E de fato carregou. O mundo dela, suas incertezas, os planos, as atividades tão diversas, a casa, os filhos, as contas, as dores. Ah, as dores! Sintomas de quem está habituado a uma caminhada sempre tão árdua e solitária. Não que fosse sozinha de fato por uma vida inteira, mas uma solidão interior, de quem sente a fadiga de passar a vida tendo que resolver tudo. Natural até.
E enquanto ela pensava nisso tudo, sentada no banco do passageiro, depois de ter engolido o choro de um dia cansativo de trabalho intenso, olhou para ele que dirigia voltando pra casa. Já se passava das nove horas da noite. O som do carro tocando alto uma letra que proclamava a volta do Rei.
De súbito encheu seu pulmão de ar e procurou pela mão dele e a certeza de que agora não estaria mais sozinha. Entre trancos e barrancos estavam construindo uma nova história, novos laços, novas trilhas musicais.
Ela suspirou, ele não notou. Estava também imerso em seus pensamentos, possivelmente planejando o dia que estava por vir. E em tudo ele a incluía.
Ela passou a vista ao redor. Não tinha reparado ainda na quantidade de prédios que aquela cidade agora trazia. Na verdade eles devem estar ali há muito tempo, ela só não teve tempo de apreciar.
Edificações iluminadas, de todos os tamanhos e formatos. Pareciam caixinhas em uma maquete. Sentiu que todos pareciam tão pequenos, inclusive ela.
Tantas vidas, separadas por paredes. Começou a imaginar que cada uma daquelas centenas de milhares de vidas abrigavam corações como o dela, cada qual com suas dores e amores, alegrias ou rancores.
No fundo, no fundo, somos todos iguais e vivemos na guerra em busca de paz. Naqueles poucos segundos de contemplação de si mesma, pôde sentir também um ímpeto de gratidão. A caminhada até ali não foi fácil. E quem disse que seria? Mas contemplando a paisagem o coração foi se aquietando, o calor da mão dele foi esquentando o coração mais uma vez.
O Ruah a confortava.
“Chegamos, amor. Hoje vou pra casa. Fica bem tá, amanhã volto. Te amo!” O conforto e a paz daquele abraço, uma prece antes de fechar os olhos. “Amanhã será um dia novo, Obrigada Deus”, pensou antes de garrar no sono.






