Por Francisco Mineiro
O filósofo Zygmunt Bauman defendia o a ideia de que vivemos na "modernidade líquida". Relacionamentos familiares, trabalhistas, coisas e crenças não são mais sólidos como foram ao longo da História. Num momento, alguém do século XXI é arquiteto católico e
casado, em meses pode tornar-se um comerciante budista e solteiro… Em relação às convicções políticas, religiosas e ideológicas, talvez a tal “liquidez” se deva ao avassalador fluxo de informação que a tecnologia derrama sobre nossas cabeças.
A informação, de boa qualidade ou não, pode corroer convicções. Por exemplo, uma pessoa nascida num lar devotamente muçulmano, de repente, descobre que a humanidade cultua milhares de religiões. Que existem cristãos com fé tão profunda e convicções tão sinceras e arraigadas quanto as dele; que os argumentos usados pelos mulás para alicerçar sua crença, são usados por clérigos diferentes para basear outras fés. Nesse contexto, pode acontecer da crença se liquefazer…
O mesmo pode acontecer com convicções políticas e ideológicas. Quem sai do círculo de páginas e publicações que compartilham exatamente as mesmas ideias, quem escapa do “viés de confirmação”, descobre o mundo cheio de pessoas honestas, cultas e bem-intencionadas e que professam os mais diversos credos políticos.
Porque matar ou morrer por uma causa, se tantas causas há, tão complexas e falhas quanto a que está reivindicando seus esforços?
Cem anos atrás, em 1922, era outro cenário. As pessoas eram mais enraizadas em suas convicções. E houve um grupo que escolheu morrer a render-se, lutando por ideias políticas.
O Brasil vivia a “República Velha”. O voto era aberto, e os “coronéis”, isto é, os fazendeiros mais poderosos em cada região, controlavam os eleitores. Era o chamado “voto de cabresto”. Também era institucionalizada a troca de favores políticos entre os “coronéis”, os Governadores e o Presidente. A presidência do país, num acerto das oligarquias mineiras e paulistas, passava de um Presidente paulista para um mineiro e de volta a um paulista, assim por diante.
Nesse ambiente a corrupção grassava, o povo era alijado das decisões, a economia não evoluía, não havia educação, nem leis trabalhistas, nem coisas que hoje consideramos naturais… Vários grupos sociais eram contra esse estado de coisas. Entre esses grupos, jovens Oficiais do Exército, muito influenciados pelo Positivismo. Esses Oficiais realizaram tentativas de mudar a situação pela força das armas, num movimento que recebeu o nome de “Tenentismo”.
Em 1921 circularam na imprensa cartas falsas, atribuídas ao Presidente Epitácio Pessoa, com ofensas aos militares. Aquilo que hoje é chamado de “fake news”. Muitos militares, coordenados pelo Clube Militar, passaram a atuar em favor do candidato de oposição, Nilo Peçanha. Em março de 1922, houve a eleição, vencida pela situação e claramente fraudada. Foi eleito o candidato de Epitácio, o mineiro Arthur Bernardes. Uma conspiração para derrubar Epitácio e Bernardes, liderada pelos “tenentistas”, foi se organizando. Mas não se organizou o suficiente…
Em 02 de julho de 22, Epitácio fechou o Clube Militar e prendeu o Presidente deste, o Marechal e ex-Presidente da República, Hermes da Fonseca. Hermes criticara o Presidente Epitácio por conta das tais cartas. A prisão do velho Marechal foi o estopim da revolta militar que eclodiu na madrugada de 04 de julho. Rebelaram-se o Forte de Copacabana, a Escola Militar, e alguns militares em Niterói e Campo Grande. Até o final do dia, somente o Forte permanecia rebelado. Aos poucos, os militares foram abandonando o Forte, até que, na tarde do dia 06, restavam três tenentes e vinte e quatro praças.
Estes homens tomaram uma decisão suicida, escolheram morrer em nome da causa que defendiam. O Forte estava cercado por centenas de soldados legalistas, entrincheirados nos prédios e casas. Os militares rasgaram a bandeira do Brasil, que era hasteada no Forte, e cada um colocou um pedaço no uniforme. Dez homens desistiram do intento, dezessete saíram para a rua, de peito aberto, para enfrentar as tropas do governo. Um civil, o gaúcho Octavio Correia, juntou-se ao grupo. Após um tiroteio desigual, dezesseis revoltosos estavam mortos. Os Tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes sobreviveram gravemente feridos. Nas tropas governistas, seis mortos. Todos esses números são afirmados ou contestados por fontes diversas, inclusive os jornais da época. Mas um número mítico ficou no imaginário brasileiro: “Os
dezoito do Forte”.
A desorganizada intentona militar, e a jornada da morte do Forte não tiveram efeitos práticos, nada mudou no país. Mas o exemplo calou fundo na alma nacional. As ideias tenentistas espalharam-se e se tornaram uma doutrina. Outras revoltas eclodiram e falharam, até que a Revolução de 1930 colocou os “Tenentes” no poder, com Getúlio Vargas… mas essa é outra história.
Talvez vivamos tempos melhores, em que dificilmente um brasileiro aceitará caminhar para a morte em nome de uma causa difusa. Será que John Lennon tinha razão em sua música “Imagine”, quando diz que seriam melhores tempos se não houvesse motivos para matar ou morrer? Só o tempo dirá.
Até a próxima.






