Por Francisco Mineiro
Querido leitor:
Uma frase recorrente é que “a História é escrita pelos vencedores.” No meu ponto de vista, a História é escrita por quem escreve História, tenha vencido ou perdido algum conflito.
Em 1964, um levante de militares e civis, simpatizante das democracias ocidentais, derrubou o governo brasileiro, simpatizante do extinto bloco soviético, e tomou o poder. O grupo, manteve o poder por 21 anos. Erros e acertos foram cometidos no período. Mas sua história tem sido escrita pelos seus adversários, pelos derrotados naquele evento histórico.
Uma narrativa comum é de que pessoas foram arbitrariamente detidas, torturadas e executadas pelos agentes do “governo militar”. Entretanto, o que ocorreu no Brasil, assim como em outros países nos tempos da Guerra Fria, foi uma “guerra suja”, entre agentes do governo e grupos apoiados pela União Soviética e China.
Muito se fala sobre mortos por ação do governo da época. Mas poucos, pouquíssimos brasileiros conhecem as histórias das vítimas dos movimentos contrários ao governo. Policiais, diplomatas estrangeiros, militares ou cidadãos comuns que estavam no lugar e hora errados foram assassinados, sequestrados, roubados ou feridos por militantes dos tais movimentos.
Um dos casos mais emblemáticos aconteceu 10 de maio de 1970.
Tudo começou quando um Capitão do Exército, Carlos Lamarca, deixou-se levar pela doutrinação comunista e ingressou num movimento armado contrário ao governo, denominado Vanguarda Popular Revolucionária. A VPR teve entre seus integrantes a ex-Presidente Dilma Roussef. Foi responsável por inúmeros roubos a bancos e lojas, além do sequestro dos embaixadores da Suíça e do Japão. Também foi a VPR que assassinou, com um carro-bomba, o soldado Mário Kozel Filho.
Lamarca desertou de sua Unidade, em janeiro de 1969, levando armas e munições, e passou a atuar naquele grupo clandestino. Organizou um centro de treinamento de guerrilheiros no Vale do Ribeira, nas proximidades da cidade paulista de Registro.
Em abril de 1970, a região foi ocupada por tropas do Exército e da Polícia Militar de São Paulo. Cercados, os guerrilheiros foram escapando disfarçados em meio à população. O grupo de Lamarca ficou para trás e enfrentou por duas vezes as tropas regulares.
No segundo confronto, próximo à cidade de Sete Barras, os guerrilheiros levaram vantagem, em face do seu treinamento e armamento superiores. Vários soldados da Polícia foram feridos.
O comandante do destacamento era o Tenente da Polícia Alberto Mendes Júnior.
Este negociou com Lamarca, oferecendo-se como refém para que os guerrilheiros libertassem os feridos e permitisse sua evacuação para a cidade. O próprio Tenente Mendes levou os feridos à cidade mais próxima. Depois, desarmado e a pé, retornou aos guerrilheiros para ser trocado pelos prisioneiros remanescentes.
Passou a ser arrastado pelos guerrilheiros em seus movimentos pelas densas matas do Vale do Ribeira. A 10 de maio de 1970, Lamarca decidiu que o prisioneiro não teria mais utilidade para o grupo, e ordenou que fosse assassinado. O guerrilheiro Yoshitane Fujimori matou o jovem Tenente Mendes esmagando seu crânio com coronhadas de fuzil. O corpo foi enterrado em uma cova rasa nas florestas. Seu estoicismo salvou o grupo de 14 soldados feridos.
Alberto Mendes Junior tinha 23 anos e dois filhos quando foi morto.
Havia entrado em 1965 para a Força Pública do Estado de São Paulo, hoje denominada Polícia Militar. Ele foi voluntário para comandar o destacamento em operações no Vale do Ribeira.
Após o crime, o grupo de guerrilheiros conseguiu escapar ao cerco e promover outras ações de terrorismo. Lamarca terminou morto em troca de tiros com forças do Governo em setembro de 1971. Acumulou um extenso rol de roubos e assassinados em sua carreira de guerrilheiro.
Pelo menos duas lições esse episódio nos apresenta. Uma, lembrar que toda guerra tem dois lados. E a outra é mostrar a abnegação e o sacrifício do bravo Tenente Mendes. Cumpriu sua palavra empenhada aos bandidos, cumpriu seu dever de comandante, zelando pelos seus homens, caminhou para o sacrifício. Que sua memória seja cultuada pelos séculos.






