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O Inacreditável Vai à Guerra

Fotografiado Soldado Milhais, com as condecorações que recebeu.

Por Francisco Mineiro

“CAUSO” 1 – O SOLDADO MILHÕES

Querido Leitor, por muitas vezes citei nesta coluna a máxima: “em tempos de guerra, mentiras como terra”. Toda guerra se caracteriza pela difusão de mentiras, sejam plantadas pelos contendores como parte de suas estratégias, sejam os boatos que vicejam em meio ao terror, ou as mentiras contadas pelos ex-combatentes, nos anos que se seguem.

Mas no artigo de hoje, e em alguns que se seguirão, serão relatados fatos ocorridos em guerras recentes que parecem mentiras, mas foram confirmados por testemunhas e relatórios oficiais. De fato, ocasionalmente o Inacreditável adentra também os campos de batalha, não só os de futebol…

A figura recorrente em filmes de aventura, espionagem e guerra, é do herói, do “mocinho” que ganha à luta sozinho. Acerta tiros impossíveis, sobrevive a golpes mortais e jamais é acertado pelos palermas inimigos. Multiplicam-se as mentiras e violações das leis da Física, tudo em nome da diversão.

Pois o homenzinho de quem falaremos hoje fez algo parecido. Trata-se do Soldado português Aníbal Augusto Milhais. Assim como 75.000 outros lusitanos, integrava o Corpo Expedicionário Português (CEP), enviado ao inferno da I Guerra Mundial.

Em 07 de abril de 1918, o já desgastado Império alemão lançou uma desesperada ofensiva no norte da fronteira entre Bélgica e França, na região de Ypres. Foi a longa Batalha de La Lys, que durou de 7 a 29 de abril de 1918, e que deu uma caríssima e temporária vitória aos alemães.

A 2ª divisão do CEP, 20.000 homens, ocupava uma parte naquela frente, junto com soldados britânicos. Estavam exaustos pelo longo tempo em posição, ocupando trincheiras lamacentas e infectas. Campos pantanosos, arame farpado e armadilhas separavam as trincheiras aliadas das alemãs, naquele cenário de pesadelo que caracterizou a I Guerra Mundial. Para agravar, o armamento português era inferior ao dos 55.000 alemães que os atacaram.

Em poucas horas, milhares de portugueses estavam mortos, feridos ou aprisionados. Após dois dias, veio a ordemde retirada. Foi nessa situação que nosso personagem teve o seu papel. O Soldado Milhais desobedeceu às ordens e não recuou. Permaneceu junto à sua metralhadora Lewis MK1, apelidada “Luíza”, atirando contra os alemães.

Após algum tempo, ele começou a correr pelo emaranhado de trincheiras aliadas, o que foi facilitado pela sua baixa estatura. Passou a recolher munição e atirar com as armas que encontrava abandonadas na retirada dos aliados, indo e voltando entre diferentes posições nas trincheiras, ou na “terra de ninguém”, o terreno entre as posições adversárias. Com isso, os alemães receberam tiros vindo de várias direções, por horas e dias a fio.

A reação alemã não o intimidou, ele continuou atirando e correndo sob fogo e bombardeio. O Comando alemão, que não esperava encontrar posições ocupadas, precisou reorganizar os ataques naquele trecho da frente. Não sabiam quantos soldados estaria à sua frente! Por fim, os alemães decidiram contornar o trecho “fortemente defendido”. Tudo isso deu tempo para que milhares de portugueses e ingleses recuassem para a próxima posição defensiva, 30 km à retaguarda. Vejam o Inacreditável em cena: um único soldado atrasando o avanço de divisões!

Quatro dias depois de iniciada sua batalha solitária, durante alenta movimentação para a retaguarda, Milhais salvou um Major médico escocês que se afogava num pântano. Esse militar foi o relator para o Comando aliado do feito do Soldado português.

Quando Milhais chegou às posições portuguesas, o Comandante do seu Batalhão de Infantaria 15, Tenente Coronel Ferreira do Amaral, saudou-o com a frase que entrou para a História: “Tu és Milhais, mas vales por milhões”.

Milhais foi o único Soldado a receber no campo de batalha a medalha da Ordem da Torre a da Espada, a mais alta condecoração portuguesa, criada em 1459. Quase todos os condecorados a receberam em solenidades em período de paz.

Ele recebeu várias homenagens. Entre estas, sua vila natal mudou de nome para Valongo de Milhais. Em 2018, estrearam um filme e uma série para TV baseada na vida de Milhais. Por fim, a 10 de abril deste ano de 2023, foi inaugurado o museu montado na casa em que nasceu.

Prezado leitor, a guerra é suja, cruel e destruidora, e os militares bem o sabem. Ela traz à tona o pior do que os homens são capazes – mas também o melhor. A decisão de Milhais expressou uma coragem quase suicida e ajudou a salvar inúmeros compatriotas. Bem fazem os irmãos portugueses em reverenciá-lo. E nós? Como tratamos nossos heróis?