Por Francisco Mineiro
Alguns homens passam por esse mundo e deixam uma marca profunda, mas nem sempre as gerações posteriores dão o valor à altura que merecem. José Bonifácio de Andrada e Silva, “O Patriarca da Independência”, foi muito mais do que este título revela.
Ele foi um naturalista, mineralogista, pesquisador, poeta e político, um estadista na melhor interpretação do termo.
Nasceu em Santos, em 1763. Estudioso, conseguiu realizar, na prestigiosa Universidade de Coimbra, os cursos de Direito, Matemática e Filosofia Natural. Além dos cursos acadêmicos, era um leitor voraz, tendo lido e mesmo trocado correspondência com grandes. Já como estudante, defendia três ideias revolucionárias para o seu tempo: a abolição da escravatura, a extinção do tráfico de escravos e a integração dos índios à civilização portuguesa.
Embora fosse brasileiro de nascimento, sua competência e vasta cultura levaram a ser aceito na Academia de Ciências de Lisboa. Mediante provas, recebeu autorização para a Magistratura. Mas sua vocação não era para Juiz: era um cientista, um pesquisador minucioso. Sua capacidade levou o Reino de Portugal a patrocinar uma demorada viagem de estudos, com foco em minas e mineralogia, a Universidades e mineradoras na França, Itália, Alemanha, Suécia e Noruega. Estudou com homens como Alexandre Volta, Von Humboldt e Torbern Bergman, o criador da classificação químicas de minerais. De estudante convidado em centros estrangeiros, passou a ser recebido como mestre. Em suas viagens e pesquisas, descobriu quatro minerais novos, e oito variedades de minerais conhecidos. Entre suas descobertas está a petalita, da qual se extrai o lítio, elemento até então desconhecido, e que é tão útil na civilização atual.
Retornando a Portugal, em 1800, foi criada especialmente para ele a cátedra de Metalurgia, na Universidade de Coimbra. Simultaneamente, foi designado para vários cargos públicos: Intendente das Minas e Metais do Reino, Diretor da Casa da Moeda, Minas e Bosques, e outras funções. Mas enfrentou, a burocracia, a inépcia e a corrupção que caracterizavam o serviço público da época. Suas cartas do período expressam seu cansaço e decepção por não conseguir o progresso que tanto almejava para seu Reino.
Quando Napoleão atacou Portugal em 1808, comandou um batalhão de voluntários da Universidade de Coimbra.
Retornou ao Brasil em 1819, aos 56 anos de idade. O Brasil não era mais uma “colônia”, um anexo de Portugal destinado a fornecer recursos. Era um “Reino Unido”. Em agosto de 1820 foi nomeado “Conselheiro” por Dom João VI. Era o começo de sua carreira política. Além das ideias que mantinha desde a juventude, de integração dos negros e índios, defendia uma distribuição equitativa da terra, localização racional das vilas e núcleos de povoamento, incentivo à miscigenação das “raças”, preservação e renovação das florestas e aproveitamento adequado das fontes de água e minas. Propunha a mudança da Corte do litoral para o interior, o que somente aconteceu no século XX.
Em 1820 ocorreu a chamada “Revolução Liberal do Porto”. A burguesia da cidade portuguesa iniciou uma revolta, que logo foi apoiada por todas as forças de Portugal. O Poder foi ocupado pela Assembleia denominada “As Cortes”, que exigiu o retorno imediato do Rei para Lisboa e a adoção de uma Constituição. Dom João retornou, ante o risco de deposição. Mas deixou seu filho, Dom Pedro, governando o Brasil em seu nome.
Os deputados brasileiros enviados para a Assembleia Constituinte, coordenados por Bonifácio, logo perceberam que as Cortes queriam a volta do Brasil à situação anterior à vinda de Dom João, quando os colonos só podiam negociar com atravessadores portugueses autorizados pelo Rei; era proibido imprimir e até transportar livros; até as indústrias mais simples, como teares domésticos, eram proibidas; não havia cursos superiores, nem estradas, nem cultura. Brasileiro era para plantar cana e coletar minério, como dizia o decreto que proibiu as manufaturas.
Passaram a exigir a volta do Príncipe a Portugal, e a separação do Brasil em várias províncias subordinadas a Lisboa, com governos independentes do Rio de Janeiro.
José Bonifácio percebeu o futuro do Brasil em risco, e trabalhou ativamente para convencer o Príncipe Dom Pedro que o único caminho era a separação política de Portugal. Foi de sua autoria a carta que deu início ao movimento do “Dia do Fico”. E foi uma carta sua que desencadeou, a 7 de setembro de 1822, o célebre episódio às margens do Ipiranga.
Nomeado Ministro pelo novo Imperador, Bonifácio angariou muito inimigos pelas suas ideias avançadas. Menos de um ano como ministro, e foi deposto, preso e exilado… Passam-se os anos, e foi reabilitado pelo volúvel Imperador. Quando D. Pedro I renunciou, em 7 de abril de 1830, nomeou José Bonifácio como tutor de seu filho e futuro Imperador, Pedro de Alcântara. Mas, mais uma vez, as intrigas palacianas o derrubaram, em 1833. José Bonifácio recolheu-se à sua casa, na Ilha de Paquetá, na Baía da Guanabara, onde faleceu em 6 de abril de 1838. Hoje seus restos mortais descansam em um belo monumento em sua cidade natal, Santos.
Que seria o Brasil hoje se a abolição, a preservação das florestas e outras ideias tivessem sido postas em prática em 1822? Nunca saberemos.






