Por Francisco Mineiro
Amigo Leitor: recentemente fui convidado a fazer o prefácio de um livro infantil, escrito com muita beleza por Cristina Bergo e ilustrado pelo talentoso Marcelo Etiene. O tema era a Princesa e Imperatriz Leopoldina. Estudando a vida da personagem, percebi a importância que teve em nossa História, e o quanto ela é desconhecida de nós, os ingratos brasileiros. Nossa Independência, duzentos anos atrás, talvez não teria existido sem a valorosa princesinha.
Leopoldine Caroline Josepha von Habsburg-Lothringen, que adotou no Brasil o nome de Maria Leopoldina, nasceu em Viena em 1797. Seu pai era ninguém menos que Francisco I, último Imperador do milenar Sacro Império Romano-Germânico e primeiro Imperador da Áustria. Sendo uma Habsburgo, ela desde cedo recebeu sólida educação, tanto em ciências quanto em política. Essa família reinava em diversos países, e suas crianças eram preparadas para serem monarcas. Leopoldina era fluente em seis idiomas, tocava instrumentos, pintava, conhecia as ciências naturais, em especial mineralogia e botânica e tinha uma vasta cultura em assuntos de Política e governo.
O casamento com o Príncipe Dom Pedro, herdeiro do trono português, atendeu os interesses portugueses de estabelecer laços com monarquias mais poderosas, após o terremoto político causado pelas guerras napoleônicas. Para a Áustria, uma aliança com o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves significava oportunidade de colocar um pé na América. Nenhum romance de contos de fadas e princesas estava envolvido. Mas Leopoldina, com o tempo, desenvolveu uma poderosa paixão pelo país adotivo e por seu instável marido.
Pedro de Alcântara era o herdeiro do trono português, mas era mais focado em cavalos e diversão do que nos áridos assuntos de Estado. Só que a História não para, obrigando o jovem príncipe a decisões graves. Em 1820 eclodiu uma revolta em Portugal. A assembleia denominada “Cortes Portuguesas” assumiu o controle do Reino Unido. Esse grupo pressionou o Rei Dom João VI a retornar a Portugal. Os delegados brasileiros enviados para aquela assembleia foram hostilizados, e logo perceberam que os objetivos das Cortes eram péssimos para o Brasil: elas queriam reverter a situação política do Brasil de Reino Unido para novamente Colônia. Em termos práticos, o Brasil voltaria à situação de exploração que existia antes de 1808, quando a riqueza daqui era canalizada para Portugal, e toda atividade industrial, e até imprensa, eram proibidas.
Nomeado “Príncipe Regente do Brasil” por seu pai, Dom Pedro passou a governar um país dividido. Tropas portuguesas e parte dos governos das províncias não reconheciam a Regência e declararam apoio às Cortes. Estas declaravam nulas os atos de Dom Pedro como Regente, e queriam obrigar, até com o uso de tropas, que ele voltasse a Portugal.
Leopoldina percebeu, mais que Dom Pedro, que o Reino Unido estava acabado, que só havia dois caminhos para o Brasil: ou seria escravizado pelas Cortes, ou declarava sua total Independência. Nos bastidores, articulava, com ajuda de José Bonifácio de Andrada, os arranjos políticos em direção à independência. Nas ausências de Dom Pedro, era ela quem presidia o Conselho de Ministros que efetivamente administrava o Brasil. Repetidamente orientou Dom Pedro a contrariar as ordens da Cortes, inclusive no decisivo episódio do “Dia do Fico”, em 09 de janeiro de 1822, quando Dom Pedro comprometeu-se a permanecer e lutar pelo Brasil.
Já em agosto de 1822 o Príncipe assinou um “Manifesto às Nações Amigas”, solicitando que os demais países tratassem diretamente com o governo local e não mais com Lisboa. Era uma declaração indireta de Independência. Em 13 do mesmo agosto, Dom Pedro viajou a São Paulo, e passou formalmente a Regência do Brasil a Leopoldina. As agitações aumentam, e documentos chegados de Lisboa chegam a insultar o Príncipe e exigir que volte a Portugal, “mesmo que amarrado”. Em 02 de setembro, Leopoldina reúne o Conselho de Estado e assina uma ata já tratando da separação do Brasil e Portugal. Ainda, redige uma carta, recomendando vigorosamente a Dom Pedro para que faça a Independência.
Foi essa carta que chegou às mãos do Príncipe na manhã do dia 07 de setembro de 1822, junto com uma carta de José Bonifácio e dos infames decretos das Cortes. A leitura desses documentos levou ao episódio do famoso grito de “Independência ou Morte”.
A Independência, é bom lembrar, não foi só o grito, houve uma guerra sangrenta.
Os anos como Imperatriz foram difíceis para Leopoldina, em função do relacionamento de Dom Pedro com sua amante, a Marquesa de Santos. Esta chegou a ser nomeada Camareira da Imperatriz, que tinha que conviver diariamente com a rival. A saúde da Imperatriz piorou lentamente, enquanto sua popularidade crescia. Era mais querida pelo povo brasileiro do que o Imperador.
Leopoldina do Brasil veio a falecer em 11 de dezembro de 1826. Foi mãe de sete filhos, inclusive do futuro imperador Dom Pedro II, o mais longevo e influente governante que nosso sofrido Brasil já teve.
Talvez por ser mulher, talvez por atuar sempre nos bastidores, talvez pela falta de memória do povo brasileiro, o fato é que Leopoldina, que deixou as faustosas cortes de Viena para viver com um marido difícil em uma cidade distante e insalubre, é pouco lembrada, apesar de sua atuação tão importante quanto as de Dom Pedro ou José Bonifácio.
Até a próxima.






