Colunistas

A Jornada da Independência

Por Francisco Mineiro

Querido leitor, fosse o Brasil um país com tradição cinematográfica, como os Estados Unidos ou a Índia, milhares de filmes poderiam ser feitos sobre nossa tão pouco conhecida História. Recentemente, este autor teve a oportunidade de percorrer o trecho paulista da “Jornada da Independência”. Essa expressão está sendo usada para definir o itinerário realizado em agosto e setembro de 1822 pelo Príncipe Regente Dom Pedro, durante o qual ocorreu o célebre grito de Independência, a 07 de setembro. Uma pergunta para pensar: por que a declaração de Independência aconteceu em São Paulo, se a capital era no Rio de Janeiro? Foi a Jornada que causou isso. Vamos entender…

Dom João migrou para o Brasil em 1808. Durante 13 anos, houve um progresso gigantesco em todos os setores. Entre outras coisas, o Brasil deixou de ser uma “colônia” para tornar-se parte de um “Reino Unido”. Em 1820 houve uma revolta em Portugal. Os revoltosos obtiveram o apoio do Exército e da Marinha, portanto… venceram. Quem passou a governar foi a assembleia chamada de “Cortes Portuguesas”. Essas Cortes exigiram a volta de Dom João a Lisboa e a volta do Brasil à humilhante situação de colônia. D. João voltou, mas deixou seu filho Pedro como “Príncipe Regente do Brasil”.

As elites brasileiras perceberam que não seria possível entrar em acordo com as Cortes, e começaram a pressionar o jovem Príncipe a fazer a independência. O maior batalhador dessa causa era José Bonifácio de Andrada e Silva, o gênio científico, descobridor do elemento lítio, político, patriota extremado e amigo de Dom Pedro.

Os homens em armas são o último esteio de qualquer governo, desde sempre. Em seguida, o setor econômico, os homens que produzem a riqueza. Então o Príncipe procurou fortalecer o apoio que teria caso decidisse por uma separação. Viajou a Minas Gerais no início de 1822. E em agosto do mesmo ano organizou uma viagem a São Paulo. Planejou passar em diversas cidades e fazendas do Vale do Paraíba, a região mais rica do Brasil, amealhando alianças e verificando in loco como estava o apoio dos líderes locais ao seu governo.

Hoje são 40 minutos de voo do Rio de Janeiro a São Paulo. Naquele tempo, governante do país, com os melhores cavalos, levou onze dias. A comitiva, saiu do palácio real, onde hoje é o Museu Nacional, a 14 de agosto, e pernoitou na Fazenda Real em Santa Cruz. No dia seguinte, hospedou-se na fazenda Três Barras, que existe até hoje na cidade de Bananal. A partir daí, mais e mais moradores locais passaram a acompanhar o Príncipe, constituindo uma variada “Guarda de Honra”.

Fazenda Três Barras, Bananal, São Paulo. A janela da esquerda é do quarto onde Dom Pedro dormiu em agosto de 1822

No dia 17, o episódio folclórico: apostando corrida, Dom Pedro chegou muito antes da comitiva na fazenda Pau d’alho, em São José do Barreiro. Sem se identificar, pediu comida, e foi encaminhado para a cozinha. Almoçou com os escravos… porque a sala estava sendo preparada para o Príncipe. Pense, caro leitor, no susto do fazendeiro quando a comitiva chegou perguntando por Dom Pedro! Naquela noite, ele pernoitou em Areias, num casarão ainda existente. Passou por Porto Cachoeira, hoje Cachoeira paulista, e pernoitou em Lorena. Nesta cidade, cumpriu extensa agenda política. Dia 19, pernoitou em Guaratinguetá. Dessa vila, partiu para visitar a Igreja de Nossa Senhora Aparecida, na vila de mesmo nome. A descoberta da imagem santa já completara 105 anos, e a igreja era um importantíssimo centro de peregrinação católica.

Depois a comitiva foi para Pindamonhangaba, onde muitos homens mais se agregaram à comitiva. A cidade tem uma igreja, fundada em 1848, onde há um mausoléu dos que compuseram a “Guarda de Honra”.

Passou por Taubaté, e seguiu para Jacareí. Conta-se um “causo” de que o impaciente Dom Pedro não quis aguardar a balsa para atravessar o rio Paraíba, fazendo-o a cavalo. Resultado: precisou achar alguém do seu tamanho para trocar a calça molhada por uma seca, e atender adequadamente a multidão que o aguardava…

Passou ainda por Mogi das Cruzes e Penha, que hoje é bairro de São Paulo, e chegou a São Paulo em 25 de agosto. Assumiu interinamente o governo da Província, e realizou diversos atos oficiais. No dia 05 de setembro, o Príncipe desceu a Serra do Mar para Santos, por uma estrada de pedras, a “Calçada do Lorena”, hoje em restauração. Inspecionou fortificações e o porto, e retornou no dia 07.

Na tarde desse dia, estava descansando nas margens do riacho Ipiranga, a caminho de São Paulo, quando foi localizado por mensageiros que traziam ordens das Cortes e cartas de sua esposa, Princesa Leopoldina, e de José Bonifácio. Essas cartas foram o estopim para a proclamação da Independência, para o célebre “Grito do Ipiranga”.

A partir daí, muito trabalho e uma dura guerra, até que as últimas tropas portuguesas abandonassem o Brasil em 02 julho de 1823… mas aí é outra história.

Até a próxima, amigos.