Colunistas

Henrique Honoré Dumont, o pai do Herói

Henrique Honoré Dumont, aos 21 anos, quando de sua graduação em Engenharia.

Por Francisco Mineiro

Um dito popular muito verdadeiro é aquele que reza: “o fruto sempre cai perto da árvore”. Expressa uma verdade inatacável, só contestada em uma ou outra eventualidade, de que os filhos sempre terão semelhança com os pais

Pois é o que acontece com Alberto Santos Dumont, o criador do avião, cujo nascimento completa 150 anos nesse julho de 2023. Ele tinha exemplos em casa para ser o inventor e heroico pioneiro que foi. Ou, voltando aos ditos populares, ele “tinha a quem puxar”.

O avô de Santos Dumont, François Dumont, deixou a vida confortável na França do século XIX para aventurar-se em busca de diamantes nos inóspitos sertões de Minas Gerais. Iria associar-se à indústria de joias do sogro. A insalubridade do sertão foi fatal ao francês, que faleceu deixando três filhos pequenos. Henrique Honoré Dumont, pai de Santos Dumont, nasceu a 20 de julho de 1832 e tinha apenas dez anos quando ficou órfão do pai François.

Henrique era um garoto dotado de inteligência e iniciativa incomuns. Com apoio da família, estudou em Paris e formou-se engenheiro com somente 21 anos. Retornou ao Brasil e, inicialmente, trabalhou para a prefeitura de Ouro Preto, cidade ainda abastada pelo Ciclo do Ouro.

Muitos trabalhos e experimentos fez o engenheiro, até mesmo construindo grandes embarcações para o governo da província. Anos depois, mais experiente, Henrique Dumont foi contratado para construir a parte da Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB) nas serras de Minas Gerais. Instalou-se numa fazenda na localidade denominada Cabangu, onde ficava o principal canteiro de obras, no município de João Ayres. Esse município mudou o nome para Palmyra, e hoje tem o nome de Santos Dumont, em homenagem ao conterrâneo ilustre. Foi em Cabangu que, em 20 de julho de 1873, nasceu o mais conhecido dos oito filhos de Henrique, Alberto Santos Dumont. Esse foi seu presente de 41º aniversário, nascendo no mesmo dia que o pai…

Durante o trabalho da construção da ferrovia, percorrendo o interior mineiro, Henrique Dumont percebeu o potencial econômico oferecido pelo café. Findo seu contrato com a EFCB, investiu na compra de uma fazenda em Valença, no interior fluminense. De lá, mudou-se para a região de Ribeirão Preto, São Paulo, em busca das terras mais propícias à cafeicultura.

Diferente da maioria dos cafeicultores de sua época, Dumont era um homem culto, afeito a cálculos e previsões, progressista e inovador. Sua fazenda cresceu exponencialmente. Com o tempo, ele chegou a ter 5,7 milhões de pés de café, e mais de noventa quilômetros de ferrovias em suas terras. Foi um dos três maiores cafeicultores do Brasil. Empregava centenas de pessoas, gradualmente substituindo a mão de obra escrava por imigrantes, muito antes da Abolição.

Henrique Dumont mecanizou o beneficiamento e o transporte do café, reduzindo a dependência de mão de obra e ganhando em escala de produção. Além das ferrovias internas de suas fazendas, construiu um ramal de 100 km ligando a região de Ribeirão Preto com a malha federal existente. Foi um dos responsáveis pelo riquíssimo ciclo econômico do café paulista, com suas consequências boas e ruins. A imprensa da época chegou a chamá-lo “O Rei do Café”.

Mas nem o mais rico dos homens deixa de ser um homem, com suas grandezas e fragilidades. Em 1890, um prosaico acidente de charrete causou-lhe uma lesão cerebral, deixando-o hemiplégico e com a saúde debilitada. Ele viajou à França, em busca dos melhores médicos, mas sua saúde só piorava.

No retorno da Europa, Henrique Dumont trouxe o primeiro automóvel a gasolina que se tem notícia no Brasil, um veículo fabricado pela Peugeot, com 2,5 HP.

O previdente engenheiro percebeu que o inevitável se aproximava. Vendeu suas fazendas por um valor multimilionário, concedeu emancipação a seus filhos menores de idade e dividiu entre todos sua nababesca fortuna.

As expectativas sociais da época eram que os filhos das famílias ricas se tornassem bacharéis em direito. Meses antes de sua morte, Henrique passou um conselho fundamental a Santos Dumont: “Meu filho, eu não gostaria que você se tornasse um doutor. O futuro está na mecânica”.

Henrique Honoré Dumont faleceu em 30 de agosto de 1892, com apenas 60 anos de idade. Deixou seu filho Alberto independente e extremamente rico. É certo que o modelo, os exemplos e os conselhos do pai influenciaram para que Santos Dumont se tornasse o homem que foi, o inventor notável e destemido navegante dos ares, e não apenas mais um milionário bon-vivant da Paris do “fin de siécle”, a figura chamada de “play-boy” em nossos dias.

Entre todas as merecidas homenagens que o grande Santos Dumont merece, vale lembrar a figura de seu incomum progenitor.

Até a próxima, amigos.

Foto: Divulgação