Por: Francisco Mineiro,
Amigo leitor: algumas expressões em idiomas estrangeiros terminam por permear nossa fala cotidiana. É o caso da expressão no título, que se traduz por “notícias falsas”.
Hoje em dia a expressão tornou-se mais usada por conta da quantidade de informações falsas que pululam na Internet. A facilidade de divulgação de dados, informações e conhecimentos criou um fluxo de dados como jamais na história humana. Mas rapidez e quantidade dificultam a filtragem. Com isso, a corrente de dados incorretos, informações falsas e pseudoconhecimentos que chove sobre o mundo também é inédita.
Mas este mal não é novo. Já comentei em artigos anteriores algumas situações em que uma mentira ou ardil tiveram resultados importantes.
Um artigo foi sobre as mentiras divulgadas sobre a Guerra do Paraguai, procurando desmerecer nossos líderes políticos e militares, e que encontram eco até hoje, século e meio depois daquela luta fraticida. Outro texto foi sobre o boato divulgado na noite de 14 de novembro de 1888, que acabou precipitando a Proclamação da República, no dia seguinte.
Um caso marcante de “fake new” foi o do “Plano Cohen” de 1937. Vamos a ele.
Em 1930 uma Revolução, conduzida por elites insatisfeitas, tomou o poder e colocou no poder Getúlio Dornelles Vargas, como Presidente Provisório. Este governou como ditador, e até seus aliados denominavam o regime de “a Ditadura”. Em 1932, estourou uma revolta, conduzida por paulistas e mato-grossenses que exigiam o fim da ditadura e uma Constituição. A revolta foi sufocada, mas em 1934, finalmente, o Brasil adotou uma nova, moderna e democrática Constituição. Agora era para valer: tínhamos um país democrático, voto secreto, eleições livres, partidos políticos, liberdade de imprensa…
Só que Getúlio se sentia desconfortável no figurino de Presidente constitucional, democrático. Queria o poder total, e começou a trabalhar para obtê-lo… com a ajuda involuntária de alguns inimigos.
Em novembro de 1935, sob a condução do Partido Comunista Brasileiro, por ordens expressas de Moscou, ocorreu uma sangrenta revolta. A insana tentativa dos comunistas de derrubar o governo a partir de dois ou três quartéis durou vários dias, causou mortes e destruição, e forneceu a Getúlio algo que precisava: um assustador inimigo interno.
Dois anos depois, em 01 de outubro de 1937 os jornais publicaram uma notícia bombástica: o Serviço de Inteligência do governo havia descoberto um novo plano comunista para derrubar o governo e implantar uma ditadura subordinada ao Komintern, o Partido que governava a Rússia. O documento era chamado “Plano Cohen”. Previa assassinatos de autoridades, padres, empresários e militares, destruição de igrejas e obras públicas, e mudanças profundas no país. A lembrança da revolta de 1935 favoreceu a autenticidade do “Plano”.
Foi o argumento para Getúlio precisava para aplicar um golpe.
Mas… como assim, um “golpe”? Ele já não era o Presidente? Foi um autogolpe, um movimento para deixar de ser um Presidente limitado por uma Constituição democrática e tornar-se um ditador, um governante sem limitações.
Com apoio militar, Vargas fechou o Congresso, depôs todos os governadores e nomeou outros, implantou a ditadura que denominou “Estado Novo”. Outorgou uma Constituição de modelo fascista. Implantou a censura e o culto à personalidade, a polícia política e a perseguição a opositores, a tortura e o governo por decretos. Até as medidas democráticas previstas na nova Constituição foram sumariamente ignoradas. O Estado Novo permitiu a Getúlio governar com mão de ferro até ser deposto em1945.
Só que… o tal documento comunista, o assim denominado “Plano Cohen”, era uma farsa. Havia sido redigido por um auxiliar de Getúlio, com apoio do movimento Integralista. A notícia do Plano, minuciosamente e fartamente divulgado pela imprensa, seria chamada uma “fake new” em nossos dias.
Infelizmente, ao contrário do adágio popular que diz que “a mentira tem pernas curtas”, a mentira muito difundida, ainda mais se for apoiada pelo poder do Estado ou pela imprensa, tem pernas longas, vai longe e vai rápida. E seus braços são fortes o suficiente para girar o leme da História.
Fiquemos atentos, caro leitor. Vamos conferir as notícias que lemos e recebemos. Não acreditar em algo só porque reforça crenças anteriores. Pesquisar fontes diferentes, e duvidar sempre. A mesma Internet que nos entrega notícias falsas ou tendenciosas, é a ferramenta para conferir. Fiquemos atentos. Até a próxima.






