João Carlos Estevão de Andrade e Lenilde Ramos: duas personalidades plenas de virtudes, dois seres iluminados numa amizade irmanada há quatro décadas. João Carlos… Lenilde… e o imperdível livro João da Moto – Minha história com a paralisia cerebral (Ed. da Autora, 2021) mostram e documentam um notável registro de vida, de resiliência; uma emocionante e exemplar trajetória de superação, provando que ‘a vida não impõe limites’.
Nascido no Rio de Janeiro, João Carlos veio menino, com seus pais, residir em Campo Grande no ano de 1964. Atualmente com 63 anos de idade, ele sempre esteve engajado com determinação no sentido de suplantar naturalmente os obstáculos cotidianos, rompendo eventuais restrições, bem como buscando conhecimentos para impulsionar sua condição de cidadania, seu potencial intelectivo e produtividade, e assim otimizar a qualidade de vida sua e de seus pares.
Com produção gráfica da Life Editora, 238 páginas e 33 capítulos, o livro tem apresentação de Gysélle Saddi Tannous, e prefácio da professora Eliza Cesco. Encontram-se também, em páginas estratégicas da obra, três breves seções de fotos: intituladas ‘o ninho’, ‘as asas’ e ‘o voo’ – e em cada bloco temos duas significativas citações de João Carlos, que aqui respectivamente reproduzo, pois dizem muito da sua essência humana e refletem sua beleza interior: “A alegria de nos sentirmos amados é um poderoso combustível para o processo de autossuperação” e “A aceitação e o amor favorecem a construção da nossa autonomia”; “A consciência das nossas limitações não pode ser tão débil que nos impulsione à aventura do impossível, nem tão exuberante que nos faça recuar diante da possibilidade do fracasso” e “É preciso abraçar o mundo como a uma amante, com a paixão que não nos deixa curvados diante de nossas limitações”; “Só se alcança o difícil depois de inúmeras tentativas com o improvável” e “Para crescer, precisamos cortejar a dúvida como preço do conhecimento”.
Em tudo e por tudo, parabenizo a eclética Lenilde, por realizar com competência a missão de consignar lindamente esta história protagonizada por João Carlos, o conhecido João da Moto, que timbrou sua presença emblemática na nossa cidade, transitando feliz com seu triciclo, pilotando sua saga de resistência e militância em prol das pessoas com deficiência, ao tempo em que direcionou suas atuações perante a Associação Pestalozzi, entidade na qual integra o Conselho Científico da Federação.
A narrativa é envolvente, fluida, bem concatenada, dosada de sensibilidade e leveza, trazendo com espontaneidade os leitores para o âmago das situações descritas – e é esta admirável arte de contar, como já mostrou anteriormente, uma das características marcantes da prosa lenildeana. João da Moto…, nova publicação (biográfica) assinada pela “camaleoa das artes” (e imortal da Academia Sul-mato-grossense de Letras) Lenilde Ramos, é daquelas obras em que a narradora e o protagonista completam-se em harmonioso carisma e dignidade humana. Além de tudo, é um livro que incita à desmistificação da figura da pessoa que a sociedade chama de “deficiente”. Vale muito a pena conferir.
Rubenio Marcelo, poeta, escritor e compositor






